O amor nos tempos do Tinder

“A essência de uma pessoa é o amor e a vida só existe quando o amor se movimenta”, diz o psiquiatra Sérgio Felipe de Oliveira, doutor em Neurociências e pesquisador na área da Psicobiofísica.  A afirmação faz sentido para muita gente – e, ao que parece, também para a escritora Isabel Allende, 75 anos, que no ano passado declarou estar com o coração aberto ao amor.  Mas o que é se abrir para o amor em tempos de Tinder e de relações líquidas, em que nada é feito para durar? A idade conta nesse processo?

Na prática,  amor não escolhe idade. A experiência e o tempo fazem com que assuma formas diferentes. As emoções tresloucadas e carnais da juventude dão lugar a uma versão mais amadurecida, que se reflete num relacionamento em que há mais tolerância e prazer na companhia do outro.

É disso que fala a autora de obras como A Casa dos Espíritos. Allende vive uma espécie de lua-de-mel com o novo namorado, o advogado americano Roger Cukras, com quem divide o mesmo teto desde dezembro. Ela estava separada havia dois anos do também advogado Willie Gordon, com quem permaneceu casada por 28 anos.

O romance com o ex acabou, mas inspirou outro romance: o livro Muito além do Inverno, lançado ano passado. “Por que termina o amor? Será que se pode continuar amando depois de tanto tempo? Escrevi movida por essas inquietações”, declarou ela ao jornal “O Estado de S. Paulo”.

Depois, contudo, conheceu outro homem. “Mesmo com o livro já terminado, me vi tomada por outra questão: como é namorar aos 75 anos? Descobri que é o mesmo que namorar aos 17, só que com uma sensação de urgência. Não tenho tempo mais para a pequenez da vida, para jogos estúpidos”, completou.

Ponto final pode ser recomeço

“Colocar o ponto final num relacionamento não significa que você não está mais apta a se relacionar”, diz a psicanalista Débora Damasceno, diretora da Escola de Psicanálise de São Paulo.

Na avaliação dela, quanto mais tempo de convívio com alguém maior a facilidade de abrir o coração para um novo amor. “É um fator que conta, pois quem mantém um relacionamento longo sabe perfeitamente as dores e as delícias de compartilhar a vida”, diz. “Hoje em dia o discurso em voga é o do benefício da solidão, mas no fundo tudo que se quer é se abrir ao amor”.

E na prática isso significa dar vazão ao rumo natural das coisas, já que a capacidade de amar permanece conosco enquanto estamos vivos. “É a própria pulsão da vida”, acrescenta Débora, para quem mesmo as experiências ruins trazem sabedoria.

Ruptura para abrir novos caminhos

Estar aberto ao amor significa também não aceitar o que impõe a estrutura da sociedade, uma pressão que pode paralisar os sentimentos, de acordo com ela. “Somos condicionados a agir de certo modo, mas quando não se corresponde ao ambiente em que se vive há uma ruptura que tende a abrir o caminho para outras pessoas que não tinham coragem de fazer o mesmo”.

Ao declarar publicamente que estava aberta ao amor Isabel Allende fez esse papel, diz Débora. “Muitos de sua idade não tinham coragem e seguiram seu exemplo”, completa a especialista.

“Os sentimentos não mudam, apenas as formas de aproximação, especialmente depois do advento da internet. Hoje, a conquista é mais fácil e rápida, mas raramente profunda. Antes, havia o que chamávamos da química de uma paixão, o envolvimento do casal. Agora, os jovens permanecem adolescentes durante mais tempo, portanto, não querem longos comprometimentos”, declarou a própria Allende.

Concorda com ela o psicólogo Luiz Francisco Jr, life coach e professor da Fadisp, para quem uma das coisas boas da longevidade é que não há mais preocupação com as expectativas alheias.  “É um período possível de se experimentar uma redução da ansiedade, uma liberdade maior para aproveitar a vida, possibilitando assim atitudes que antes eram consideradas impossíveis”.

Texto  originalmente publicado no portal do Instituto de Longevidade Mongeral Aegon.

 

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